A realidade virtual como meio de transmitir e preservar a cultura indígena
Publicado em 23/12/2025
Atualizado às 16:05 de 12/01/2026
Projeto: Kamukuwaká realidade virtual – Um patrimônio arqueológico e cultural indígena brasileiro
Texto: Piratá Waurá, com apoio de Yula Rocha
Este projeto imersivo em formato de realidade virtual nasce do desejo do meu povo, os Wauja do Alto Xingu, de compartilhar o conhecimento ancestral do mito do Kamukuwaká com o público não indígena diante da crise climática global e da tentativa de apagamento da nossa cultura.
Em 2018, quando as gravuras milenares da gruta Kamukuwaká – considerada sagrada para nós e tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) – foram vandalizadas no Mato Grosso, nós começamos a trabalhar com parceiros internacionais na reconstrução de uma réplica em tamanho real, no desenvolvimento de um piloto de realidade virtual para o nosso povo “entrar na gruta” e em um filme de curta metragem chamado Replika. A obra foi tão bem recebida nas aldeias Wauja, especialmente pelos mais jovens, que decidimos criar uma experiência imersiva para educar o público não indígena. Antes de dirigir o Kamukuwaká – o chamado da floresta, em parceria com o Studio KWO e a People’s Palace Projects, eu trabalhei na produção, na filmagem e na edição de filmes e vídeos como cineasta, fotógrafo e educador nas aldeias Wauja, documentando nossa história e nossas memórias.
O audiovisual, para mim, é também uma ferramenta de luta pelos direitos dos povos indígenas. Desde a demarcação do primeiro território do Brasil, o Xingu, onde vivo, na década de 1960, lutamos para que a gruta do Kamukuwaká – hoje dentro de fazendas de soja – fosse incorporada à nossa terra. Kamukuwaká – o chamado da floresta, agora finalizado e prestes a ser lançado, é uma obra de arte, mas também parte do trabalho de incidência política para nós no Xingu. Esperamos que a arte possa sensibilizar políticos e o público sobre as nossas lutas.
Sobre o projeto
Kamukuwaká – o chamado da floresta transporta o público ao território indígena do Xingu em uma experiência imersiva de realidade virtual. A obra convida a vivenciar rituais, encontros com pajés e visões da floresta através do tempo, revelando a força dos saberes Wauja diante da crise climática.
O terceiro desafio foi a logística de gravar no meio da floresta e o curto tempo de captação da obra – menos de uma semana! Depois de quase 24 horas de viagem, a equipe do Studio KWO foi recebida na aldeia Ulupuwene em meio aos preparativos para a inauguração da réplica da gruta do Kamukuwaká, com mais de 300 convidados, entre autoridades, lideranças indígenas, jornalistas e parceiros internacionais. Fizemos uma apresentação no centro da aldeia para explicar que, para gravar com câmera em 360 graus e drones, as cenas precisariam estar limpas, sem gente circulando ou falando, uma tarefa difícil para a rotina da aldeia de 180 residentes, a maioria jovens e crianças, onde todos circulam livremente.
Durante todo o fazer de O chamado da floresta, fui guiado pela sabedoria do Kamukuwaká. Esse mito sempre me ensinou a viver em harmonia com a natureza. Com esta experiência imersiva, espero que os não indígenas entendam que somos todos natureza. Espero que eles escutem meu chamado para agir antes que seja tarde demais.